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Manuel Pinho, a “Casa da Democracia” e a Taberna

É interessante verificar o modo como, neste país, “caem” ministros do governo, não porque sejam incompetentes, mas apenas porque se “portam mal”. Aliás, é sobejamente conhecido este legado barroco que abunda na mentalidade portuguesa de que a forma se sobrepõe à substância. Os políticos conhecem-o bem e manipulam as suas extremidades brilhantemente. Aos ministros admite-se tudo – até a incompetência – só não se admite que percam as estribeiras e façam gestos despropositados. Foi precisamente esta ideia que, subrepticiamente e quando menos esperávamos, nos conseguiram “enfiar” na cabeça durante a última semana.

Este foi o gesto em questão que levou à demissão do Ministro da Economia, Manuel Pinho. Mas curioso foi verificar que a bancada que fez “queixinhas” não foi a do PCP como seria de esperar – já que o visado dos gestos fora Bernardinho Soares, líder da bancada parlamentar do PCP -, mas sim a bancada do PSD. Tão oportuno. Aliás, o debate do Estado da Nação estava a correr tão mal ao PSD que era necessário uma válvula de escape como forma de redireccionar todas as atenções – uma técnica de dique muito desenvolvida pelos Egípcios, levar as águas para onde queremos, boas ou más. Mas como eu tenho memória (e falo no singular porque há que perder a mania instalada de que podemos falar pelos outros e invocar a palavra “portugueses” como se fossemos a sua voz), recordo que tal bancada social democrata, há não muito tempo, fora aquela que nos contemplou com esta pérola:

O deputado Eduardo Martins, protagonista do tão famoso “vai pró c******” e do convite ao confronto físico dirigidos ao deputado socialista Afonso Candal, vive confortavelmente com a triste figura que fez e, no Debate do Estado da Nação, estava ainda na bancada social democrata como se nunca nada tivesse acontecido. Aparentemente, no PSD, este tipo de atitudes são admissíveis e não carecem de consequência política (ainda que meramente interna).

Mas a bancada social democrata tem outras pérolas bem mais valiosas provenientes, imaginem, do mesmo deputado Eduardo Martins:

Só me apraz um comentário: “PALHAÇADA”. Caso para repetir – aqui estou eu outra vez -, o deputado Eduardo Martins que manda para sítios pouco migáveis, convida à violência e chama palhaço ao principais adversários políticos (e estas são apenas algumas das sua facetas) vive confortavelmente com as tristes figuras que fez e é ainda deputado da tão ilustre bancada social democrata que tanto gosta da “casa da democracia”.

De todo o modo, devo reconhecer que é verdade que Eduardo Martins não é Manuel Pinho, nem tem as suas funções. Felizmente!  É para estas coisas que Deus existe. Portanto, devo reconhecer que é diferente a gravidade do que fez Manuel Pinho pelo cargo que representa. Já quanto às consequências políticas que daí advieram, só posso repetir o parágrafo com que comecei este artigo. Manuel Pinho foi um dos ministros mais competentes deste governo e deixa-me triste verificar que, por motivos meramente formais, se considere como natural e como única solução política a sua demissão.

Mas não sejamos ingénuos, isto não é uma gota de azeite num balde de água. A coisa tem uma razão de ser. Eu tenho visto e verificado sistematicamente o nível em que se encontra o debate parlamentar naquele espaço a que alguns ainda têm o descaramento de chamar “casa da democracia” e acreditem que é muito baixo. O ambiente parlamentar é de taberna. Quando alguém usa da palavra é obrigado a suportar insultos constantes de todas as bancadas parlamentares sem excepção. Está na moda chamar “mentiroso” ao adversário político como se isso fosse tão natural como respirar. Os próprios debates que temos vislumbrado na rádio e na televisão roçam já o ambiente de taberna a que me referi. Por isto, em larga escala, tem culpa o Eng. José Sócrates pelo estilo que imprimiu durante quatro anos. Mas, uma vez mais, não sejamos ingénuos, até porque, para mal dos pecados de muitos políticos, a culpa nunca morre solteira e o carrossel só anda enquanto lhe derem corda – todos têm usado desse tipo de discurso político porque já viram que resulta e que agrada à maioria dos portugueses que querem políticos duros, ferozes, que sabem o que querem e como o obterem. A “casa da democracia” está habitada por uma “família” em guerra civil.

Portanto, quem é que se admira das reacções do ex-ministro Manuel Pinho, ou do ainda deputado Eduardo Martins senão apenas os jornalistas que anseiam por notícias, os falsos moralistas e os oportunistas políticos? Não é descaramento invocar a dignidade e o prestígio da “casa da democracia” quando nela se aceita, de ânimo leve, um ambiente ultrajante?

Esta nova geração de políticos aprendeu bem as lições de Maquiavel, mas não tão bem as lições de Democracia – talvez não seja ao acaso que um estudo recente demonstre que os portugueses não estão satisfeitos com o seu funcionamento. Com estas pessoas ao seu serviço, não há Democracia que aguente…

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