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Set
07

Praxe…

Assunto em voga, sem sombra para qualquer dúvida. Mas sejamos claros, quando falo em praxe, falo em praxe “tradição”, aquela que é feita nas universidades e não outras, que mais não são senão cópias de uns fulanos que gostam de descarregar as suas frustrações nos pobres coitados que mudaram de escola.

Como muitos sabem, sou estudante da academia minhota, leia-se Universidade do Minho. Quando entrei fui praxado. Praxei e ainda praxo. Hoje sou finalista, olho a praxe com outros olhos, com outra experiência e outra seriedade com que, à altura, não olhava.

Ao longo dos anos presenciei vários abusos, várias distorções da praxe, várias segundas intenções que não a principal que é integrar. Perdi muitos amigos por ser sincero e por não gostar que brinquem com aquilo que realmente é sério. Não me arrependo de nada do que fiz até hoje e sempre fiz muitos amigos e propiciei grandes momentos a quem entrava e ninguém conhecia.

Mas este ano, em especial, me debrucei mais neste pensamento. Vejo pessoas que vêm de muito longe, Açores, Madeira. Pessoas com deficiências, como por exemplo invisuais. São pessoas como as outras, mas com um défice maior de convivência e que olham a praxe como a única forma de fazerem amigos, a única forma de não sentirem as saudades de casa que por vezes são muitas.

Sim, a praxe é dura. “Dura Praxis, Sed Praxis”. Não há mais nada a dizer.

Não, a praxe não é violenta. Não, a praxe não é a tropa. Não, a praxe não é humilhação.

A praxe é respeito. O culto do respeito pelos mais velhos, ou melhor, pelos mais experientes é muito bonito e é coisa boa. Para as coisas funcionarem é necessário respeito, é isso que os chamados “doutores” / “engenheiros” de praxe, ou por outras palavras, praxantes, procuram nutrir nos caloiros. Quando eu era caloiro não gostei de ser pressionado a fim de fazer algumas coisas, mas logo percebi que essas coisas não eram tão más assim. Eu cantei músicas de “gays”. Eu simulei orgasmos. Eu simulei partos. Eu fui massacrado psicologicamente. Mas no final percebi que nada disso que eu fiz era mau, apenas o era na minha cabeça e é um pouco isso que se consegue com o respeito, consegue-se levar alguém a perceber que as coisas são o que são, devemos brincar com elas e não as levar a sério, a menos que o sejam realmente.

Se não fosse o respeito a que me obrigavam não teria feito metade do que fiz. Simplesmente não teria.

No final eu sei que perderia muita coisa, amigos, conhecimento, responsabilidade, atitude, amor pelo curso e pela academia, orgulho em ter sido praxado.

Todas estas coisas que eu vos conto soam estranho, são-o de facto. Mas que interessa? Não é a vida estranha por si só? Limito-me a descobrir o gozo que dá saber que não se sabe tudo e que muito há a aprender com quem tem mais experiência.

Estes dias vesti o meu traje, símbolo da academia, símbolo de um país conhecido pelos descobrimentos. Traje esse que por si só é conhecimento, história e sabedoria. Fui praxar e olhei as caras de cansados dos caloiros, muitos certamente com poucas horas de sono e ali, a apanhar com o sol da manhã na cara pintada. Juntei-me a muitos outros que, de igual modo, estavam bem trajados de cima a baixo e fomos fazer o que realmente importa: divertir os caloiros, fazer com que não se arrependam por ter vindo, fazer sorrir, ver pessoas a conhecer-se e a gritar pelo seu curso e pela sua academia.

Isto incomoda muita gente que não sabe conviver. É natural, não vou aqui criticar ninguém. Quem disse que precisamos de alguém pra seguir a nossa vida? Para essa pessoas creio que apenas basta uma mensagem: Para tudo na vida, até para o amor, é necessário dar o braço a torcer e fazer uns sacrifícios em prol de um bem maior…

Se não são capazes de entender isso então ainda bem que não vêm, que não gostam e que critiquem a praxe. A cada crítica desinformada mais fortes nos tornamos e mais longe vai a nossa causa.

Estes dias, ou melhor, há uns meses, teve lugar uma espécie de “tertúlia” na Universidade do Minho em que se discutiu a praxe. Algures alguém proclamava que lentamente ocorria um “efeito ampulheta”. Ou seja, que hoje eram poucos contra a praxe, mas o tempo prova que são cada vez mais. Mas tenho a dizer que na minha academia a ampulheta desafia as leis da gravidade e funciona ao contrário porque somos cada vez mais a praxar e a ser praxados, bem como a cumprir os “rituais” da praxe, conservados durante anos e que não queremos perder. Portanto, desculpem lá uma vez mais, mas ainda precisam de aprender para ensinar alguma coisa.

A TV, em especial os telejornais, são incrivelmente rápidos em fazer de casos isolados exemplos nacionais. Como se, afinal, aquele caso seja a excepção que confirma a regra. É o trabalho dos jornalistas, não critico. Mas para eles digo isto: A liberdade é muito boa e o que não falta é quem abuse dela para proveito próprio prejudicando outros. Será que isto faz da liberdade algo a evitar?

O mesmo será dizer: se algumas pessoas abusam da praxe (discute-se se, abusando, será sequer praxe…) será que isso faz da praxe algo de mau?

Sejamos realistas, olhemos o exemplo do invisual que quer ser integrado e que, de outra forma, seria evitado por pessoas reles que não têm mais nada que fazer senão comentar no café e portarem-se como autênticos preconceituosos. Na praxe não há desrespeito por ninguém, seja quem for, seja como for, entre doutores ou caloiros, ou entre os próprios caloiros entre si. São todos iguais e quem se acha superior cedo se apercebe que tanto pode ser bestial agora, e logo depois uma besta.

Vejamos o exemplo das pessoas que estão longe de casa. Não precisam elas, urgentemente, de conhecer gente do seu curso e de outros cursos que a possam auxiliar numa nova realidade? Todos precisamos de amigos e quando estamos longe de casa a tendência é o isolamento, a depressão a vontade de largar tudo para voltar para casa…

Enfim, é o que tenho a dizer sobre a praxe.

Doa a quem doer, praxe é integração e acreditem, a muitos dói muito!

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9 Responses to “Praxe…”


  1. 30 de Setembro de 2007 às 02:25

    Mas que GRANDE post…

    <vénia <vénia

    Não tenho uma opinião totalmente formada sobre o assunto pois só para o ano poderei sentir o que é uma praxe, mas este post vai de encontro à imagem que tenho da praxe…

    Muitos parebens 😉

  2. 30 de Setembro de 2007 às 15:44

    Hum… Eu não fui praxada! Mas não me declarei anti-praxe =) Simplesmente não gostei da arrogante e mal educada forma com que fui abordada, já lá vão dois anos. Não que seja anti-social, muito pelo contrário!
    Hoje não tenho traje, mas assisto como é obvio à praxe dos caloiros do meu curso… e se fosse possivel um ser humano se partir a rir, eu já me teria partido à imenso tempo. Estou a gostar bastante das actividades criativas que estão a fazer as doutoras do meu ano, algo incrivelmente diferente do que lhes fizeram quando eram caloiras. Relativamente à minha opinião, no geral, ela é bastante positiva. Gosto de ver a U.M. cheia de caloiros pintados e a gritar pelo seu curso e pela faculdade que os irá formar. Uma das coisas mais engraçadas que vi este ano foi o confronto, ali junto ao CP1 entre o pessoal de direito e o pessoal de lesi! Incrível! Aquilo é e foi viver o espírito académico!!!

  3. 3 Pedro
    1 de Outubro de 2007 às 00:31

    EXCELENTE!

    É isto o que tenho a dizer em relação a este post. Parabéns e obrigado por dedicar tanto tempo a informar como as coisas realmente são. 🙂

  4. 4 Sabina
    27 de Novembro de 2007 às 19:57

    A praxe é pra quem quer e pra quem pode! Pra quem a vive, sente, e ama. Vestir uma sweat de caloiro ou um traje de doutor sem viver a praxe, é estar com qualquer um dos dois sem sentimento! E com que moral se veste preto? Com nenhuma! A praxe é mesmo uma forma de integraçao. Criam-se imensos laços de amizade, e é graças a ela que nos formamos enquanto pessoas! É uma verdadeira liçao de vida… Pra mim, que ainda nao sei muito, assume ja imensa importancia, e cantar por cantar ou fazer venia por venia, nao tem significado! Um dia (se la conseguir chegar, ja dizem os de preto =P), irei d certeza transmitir a mesma mensagem q me transmitiram a mim! Praxe nao é humilhaçao, é sim, uma experiencia para toda a vida…

    “Dura Praxis, Sed Praxis”

  5. 25 de Setembro de 2008 às 21:46

    Até me vieram as lágrimas aos olhos.
    Parabéns!…
    Tu sim, podes envergar o traje académico. És um verdadeiro Doutor.

    🙂

  6. 7 Daniela
    11 de Outubro de 2008 às 03:17

    Ainda não tinha acabado de ler este post e já a vontade de o comentar era gigante… Puseste em palavras aquilo que muitos têm tentado explicar durante anos. Sem seres prepotente, sem te dares ares de superioridade. Eu sou Dra na mui nobre academia do Porto e é cm muito respeito e muita felicidade que vejo alguém descrever a praxe nestes termos… A praxe faz já há alguns anos parte da minha vida. E se é verdade que me trouxe algumas desilusões, não é menos verdade que teve muita influência naquilo que sou hoje. A praxe deu-me os meus amigos, deu-me algumas das pessoas mais importantes da minha vida (não digo que não os tivesse sem o auxílio da praxe mas a ligação que tenho com eles nunca, mas nunca seria igual!).
    Para além do que a praxe me deu há uma coisa que só quem está realmente em praxe sabe do que falo. O orgulho de ser praxista, o orgulho de trajar, de gritar por uma casa, por um curso. A emoção sentida, após um ano de verdadeiro esforço, ao ouvir na Monumental Seranta, o fado académico… Momentos inigualáveis e que ficam na memória de quem os vive ad eternum.

    Obrigada por este post…

  7. 8 Catarina
    12 de Agosto de 2009 às 23:43

    Confesso que, quando entrei para a faculdade, tinha muito receio da praxe. Ouvia as histórias de abusos e de “brincadeiras” que tinham corrido mal. Entrei para universidade e, apesar do medo, deixei que me praxassem pois, no fundo, eu não era contra…só tinha receio. O meu pai, que nos seus tempos de estudante já foi uma das altas patentes da praxe da cidade invicta, sempre me falou da actividade praxística como momento de integração e de divertimento e da importância de não pisar o risco enquanto doutor, nem deixar que os limites se ultrapassem enquanto caloiro.
    De qualquer forma, enfrentei a praxe, no princípio a medo, como já referi, mas a verdade é que, graças a ela, conheci os meus amigos, integrei-me no curso, na Universidade e na cidade que era nova para mim. Passei o melhor ano da minha vida e comecei a chorar a meio do meu primeiro cortejo por esse mesmo ano já ter terminado. Não tenho experiência de outras universidades, por isso falo da minha: a Universidade do Minho é uma academia fantástica. Em termos de praxe é como uma família. Com ela passei os melhores tempos da minha vida que hoje recordo com extrema saudade. Fui muito bem praxada: brincámos quando era para brincar, levámos na cabeça quando fazíamos asneira. Ensinaram-nos as regras a respeitar e foi o que fizémos, sem humilhações, sem faltas de respeito e sem exageros… apenas pura diversão. Lembro-me que tinha orgulho em chegar a casa toda suja e pintada pois sentia-me uma verdadeira caloira.
    Agora chegou a minha vez de praxar. Tenciono honrar o Código e o traje e praxar do mesmo modo que fui praxada e seguindo uma regra muito importante: não fazer aos meus futuros caloiros aquilo que eu não gostei/gostaria que fizessem comigo. Tenciono brincar, divertir-me e fazer com que eles se divirtam, mas tenciono, também, ensinar-lhes o verdadeiro significado da praxe.
    Em Maio, no cortejo, se me disserem que vão ter saudades do ano de caloiro, saberei que eu e os meus colegas doutores fizémos um bom trabalho! =)

    Obrigada pela oportunidade que deste de mostrar a todos que a praxe não é violenta, nem para humilhação. É para divertir e sermos integrados na nova etapa da nossa vida e num meio totalmente diferente onde, sem apoio, estamos praticamente desamparados =)

  8. 9 Filipa
    8 de Setembro de 2010 às 03:34

    Já pertenci a três Academias de Portugal, e só não fui praxada na que me encontro actualmente porque, na minha faculdade, a Praxe não se estende até à 2.ª fase. No entanto, já conhecia o conceito de Praxe muitos anos antes de ingressar no ensino superior através de familiares que, involuntariamente, me motivaram ainda mais para despachar o Liceu e entrar finalmente em Veterinária.

    A Academia que mais me marcou foi a transmontana UTAD, Universidade de Trás-os-Montes-e-Alto-Douro. Lá, a Praxe é dura, rígida e exaustiva. Questionava-me todos os dias da primeira semana de aulas: “Mas porque é que eu me submeto a estas merdas se eu já fui praxada?”. Contudo, ficava sob a guarda dos meus Doutores até ter ordem de soltura às tantas da madrugada, e voltava sempre lá na manhã seguinte, para o meu lugar, de quatro, junto dos meus amigos. Ao poucos – talvez também por não ser completamente insciente sobre o assunto -, e ao contrário do que se passou na minha primeira Academia, fui-me apercebendo do mesmo que tu: tudo aquilo tinha um objectivo. Os Doutores seguiam-nos para todo o lado fôssemos nós ao bar, ao wc ou para as aulas, conduziam-nos a casa no fim das actividades e começavam a não conseguir deixar de demonstrar alguma empatia para connosco por detrás daquele ar sério e dos gritos que ensurdeciam os nossos ouvidos. Lentamente, começou a fazer sentido o rebolar no chão com os meus amigos e submeter-me a todas as outras ordens dos Doutores, as caminhadas por Vila Real inteira, as noites (de borracheira ou não) sem fim, e o cansaço foi-se transformando em força para saltar da cama, chegar à Universidade e gritar cada vez mais alto por Veterinária. Não consigo descrever melhor por palavras a sensação que tinha, mas conseguia sentir dentro de mim a crescer o orgulho de cada palavra que nos mandavam dizer: “Praxe é União, é Amizade, é Integração!”.

    Hoje em dia sou Doutora de Veterinária, e visito Vila Real sempre que me é possível. Infelizmente, no ano passado percebi que, por mais que tente, sozinha não consigo transmitir a mesma mensagem que me passaram a mim, na Praxe da UTAD, aos meus Caloiros de Lisboa. Lamento que os meus colegas não possam visitar as vossas Academias, bem como a UTAD, onde a Praxe é devidamente regulamentada e aplicada e se faz valer o “Dura Praxis, Sed Praxis”. Lamento também que, por mais ridículo que possa parecer, não existirem “Seminários de Praxe” onde os Praxantes possam aprender os princípios da Tradição Académica e ver esclarecidas as suas dúvidas. Por fim, apesar de ainda ver Capas Negras em Lisboa, lamento ver desrespeitado o Traje sob muitas delas e sentir cada vez menos aquela brisa no ar a saber a Tradição Académica…


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