… devo admitir que tenho acompanhado atentamente todas as posições que têm vindo a público, quase todas muito positivas em relação a este “acordo” do “desacordo”. Em jeito de introdução devo dizer que, ao contrário da maioria e para que conste do registo, e talvez apenas para contrariar, ou nem tanto assim, sou completamente contra o acordo ortográfico. Quando digo “contra”, leia-se “completamente contra”. Depois de tanto tempo, depois de ler atentamente todas as pessoas que se dignaram – e bem (mal) – a falar sobre o assunto, devo dizer que Portugal é um grande país, com uma vastíssima identidade cultural, preservando uma língua puramente latina com as suas especificidades que, ao contrário de muitos outros países, soube preservar e levar ao conhecimento dos povos das suas antigas colónias, língua essa que prima, não apenas pela sua extrema complexidade, mas igualmente pelo sua extrema musicalidade, força e ritmo subjacente em cada palavra. Infelizmente, no meio desta tela fantástica, devo dizer que Portugal tem um problema enorme: Tem demasiados Portugueses. Sou levado a pensar que, efectivamente, e para mal dos nossos pecados, só um povo que se encontra em minoria – e sabe o que significa ser a minoria e o que isso implica num país – acaba por dar valor à sua identidade cultural. Quando os nosso antepassados partiram à descoberta do desconhecido, nunca podiam imaginar o que os seus descendentes (lei-se “nós”) iriam fazer com essa cultura…
Pergunto-me o que grandes escritores portugueses pensam acerca desta acordo ortográfico, uma vez que a grande maioria ainda não tornou pública a mesma. Pergunto: até que ponto José Saramago, Herberto Hélder, José Manuel Mendes, Ramos Rosa, Lobo Antunes, Nuno Júdice, entre muitos outros que efectivamente dignificam a nossa língua, a nossa cultura e identidade íntima, aceitarão este “acordo”? Assim, simplesmente, de ânimo leve, como se de apenas um acordo dependesse a língua de todos nós. Especialmente quando o motivo inerente é apenas uma “aproximação”, signifique isso o que significar.
Alguns dirão que eu não gosto da evolução. Aceito a crítica, é infeliz, mas aceito. A realidade é que, bem pelo contrário, aceito-a naturalmente! Perceberam a subtileza? – Naturalmente! Pois que assim tudo deve evoluir, de acordo com as necessidade naturais e não para a semelhança entre dois padrões (que há muito decidiram seguir a sua vida, cada um para seu lado). Efectivamente tudo o que está em jogo são valores económicos. A mais fácil entrada de variados livros e obras nos dois mercados (Portugal e Brasil, sim, porque aos outros ninguém lhes perguntou nada…) é o primeiro objectivo, o segundo será criar uma língua que se possa considerar efectivamente “universal”. Isto é tão ridículo que quase me apetece chorar ao ver a nossa – cada vez menos nossa – língua numa qualquer bancada de super mercado global.
Pergunto-me: porque deveríamos ter uma língua “universal”? Qual a real vantagem disso? É quantidade qualidade? Será que nenhum de vocês percebeu ainda (sim, porque é de entendimento que aqui se trata) aquilo que fizeram com o inglês desde William Shakespeare? É isso que pretendem para o Português? Devo dizer que o RAP e o HIP HOP português vão efectivamente encontrar-se no melhor de dois mundos…
O Português, quando vê o que é dos outros, fica logo desejoso de também ter, de também assim ser, de estar ao mesmo nível. Porque devem os outros países e culturas valorizar o que é “nosso” se nem nós próprios damos valor? E digo “nosso” porque é disso que se trata, não foi o Brasil que nos ensinou a falar o Latim. Que eu saiba os índios falavam outro dialecto. E subentenda-se que isto não é uma crítica ao Brasil, nem à sua cultura, bem pelo contrário, eles sabem preservar o que efectivamente conquistaram com todo o mérito, infelizmente os Portugueses esqueceram à muito a auto-estima, essa mesma que se afunda nas retretes.
Devo dizer que jamais cumprirei este “acordo do desacordo”, jamais, até porque uma lei não vale pela vigência, mas antes pela aplicação, e é aquilo que todos aqueles que, como eu, respeitam o que nos foi legado, certamente farão – ignorar. A língua Portuguesa, aquela que se fala em Portugal, sempre soube seguir o seu rumo de acordo com evolução natural das coisas, dos hábitos, etc, não era preciso agora virem com a “desculpa estragada e fora de prazo” de uma “aproximação”. O que é que isso significa mesmo? Que o que temos está mau? Ou que o dos outros é melhor?
Vamos a exemplos:
“úmido” – Sem o “h” mudo nem tão pouco da a sensação de humidade.
Não sei se alguma vez pensaram porque certas palavras nos dão a sensação implícita à sua significação formal. Querem outro exemplo? – “sede”. O próprio facto de dizer a palavra causa essa sensação. Muitos mais exemplos há, desde que tenhamos sensibilidade para o efeito.
“ação” – abandona-se “acção” que deriva da palavra “acto” (esta também vai para “ato”). Alguém me explica o que é isto? É para preguiçosos? É que já vi justificações que abonam a favor da vantagem desta mudança por se passar a ter apenas 3 letras. Alguém me explica isto? É que não sei se já repararam que as consoantes mudas – ou nem tanto assim – têm efectivamente a sua razão de ser, deriva da nossa identidade latina.
Este é apenas um exemplo, porque praticamente todos os “c” mudos vão desaparecer.
Nem vou estar aqui com mais exemplos, porque efectivamente este esforço de procura de motivações é desgastante e não nos leva a lado nenhum. Nenhuma das alterações que querem introduzir modificam, formalmente, nada. NADA! É precisamente isto que todos aqueles que estão a favor dizem. Eu concordo, formalmente não altera NADA, a única coisa que muda identifica-se materialmente, no sentido em que corrompe a nossa identidade, aquilo que faz com que a língua portuguesa seja “nossa”. O Brasil pode falar e escrever português, o seu português, pois que eles também têm o que é seu. Cada um de nós pode seguir o seu rumo sem se preocupar com o que cada um anda a fazer. Alguém ainda tem dúvidas que o interesse é económico? A língua, hoje, é moeda de troca e tem o seu mercado de valores. Daí que a palavra “merda” faça agora todo o sentido e pareça lirismo. Merda para esses gajos que nem falar sabem e, infelizmente, comandam o destino de muitas coisas que nos dizem intimamente respeito.
Alguém se questiona acerca do inglês? “Essa” língua fala-se em todo o mundo. Mas vão ao Reino Unido e apreciem como se fala lá “o inglês” depois compreenderão o que é dar valor à sua identidade linguística, independentemente do que fazem com a sua língua do outro lado do mundo (leia-se EUA), que até são muito mais, mas muitos mais mesmo. Contudo, como podem ver, não é isso que os leva a adaptar a sua identidade para se “aproximarem”. Talvez aprender um pouco dessa “auto-estima” com os nosso “supostos” eternos aliados não seja um exercício menor a alterar a nossa cara língua.
Enfim, devo dizer que somo ridículos, sempre seremos e só perceberemos isso quando todos os outros deixarem de olhar para nós com seriedade. Não valorizamos nada do que temos, nem os nossos próprios escritores, e quando o fazemos damos mais valor a livros da Carolina Salgado, ou a outro tipo de “fast food” literário e é por isso que cada vez se lê mais em Portugal, sem dúvida – mais porcaria. Aquilo que me irrita profundamente é que este discurso que sigo chega, nos dias que correm, a ser considerado como vulgar, porque o que está na moda é ser como os outros e achar que nada tem valor a não ser a originalidade do penteado, da roupa e, quem sabe, do pensamento – seja lá isso o for… Estou cada vez mais convencido que o único local onde se fala português como ele deve ser falado é em África. Talvez não seja ao acaso que praticamente todos os grandes escritores portugueses tenham um enorme fascínio por África, sendo que muitos deles nasceram lá ou viveram lá durante anos.
Sou, neste momento, um homem destroçado, porque sempre achei que fazia todo o sentido preservar e levar ao conhecimento dos outros aquilo que é Portugal, a sua língua, cultura, tal como é ela e não como há quem queira que ela seja, contudo, agora sei que a grande maioria não acha isso relevante, pelo que pode muito bem ser desfigurado para se tornar mais “semelhante” ao dos outros, o que realmente importa são as nossas praias. Os poucos países (entre os quais a Alemanha e o Reino Unido) que ainda estudam a nossa literatura, têm um excelente pretexto para terminar, de vez, com esse esforço pois, dentro de uns meses, lá estarão os poemas de Cesário Verde, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Herberto Hélder, entre outros, reescritos, “abrasileirados” por assim dizer.
Viva Portugal!!!